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O pior isolamento é aquele que nos faz ficar perto dos que pensam como nós

Criado: Quinta, 09 de Abril de 2020, 16h01 | Publicado: Quinta, 09 de Abril de 2020, 16h01 | Última atualização em Terça, 14 de Abril de 2020, 15h00 | Acessos: 301

Mensagem do Prof. Júnio César B. de Souza*

Em tempos os quais a represa dos rios de notícias estão com as comportas abertas é necessário ficarmos atentos para os conteúdos que jorram sem cessar. O título desse texto, com certeza chamou sua atenção por algum motivo específico, quiçá de modo pejorativo, construtivo ou especulativo. Seja como for, ele é uma “faca de dois legumes” e sua mensagem ou qualquer outra, afeta o homem de alguma forma em um determinado grau de reflexão particular. No entanto, qual a sua correlação com este ambiente de afastamento social o qual estamos enfrentando? Que propósito ele pode conter em suas entrelinhas, teorias e convenções presentes no imaginário coletivo, onde a ausência do diálgo é pungente em nossas atitudes, gestos e olhares? Nesse contexto, especificamente sobre a comunicação verbal, já dizia Benveniste (1968, p. 132) “a escrita é a transposição da linguagem interior”.

 

Mas, será que tudo o que escrevemos reflete de fato aquilo que queremos transmitir? Em muitos casos, infelizmente, não! Isso se deve porque muitas pessoas não levam em consideração, no momento da elaboração textual, um conjunto de elementos extremamente importantes que constituem o processo de comunicação, escrito ou falado. Roman Jakobson (1970, p. 20), um dos maiores linguistas estruturalistas do século XX, fundador e presidente do Círculo Linguístico de Moscou em 1915, ao dedicar seus estudos nessa área, e baseando-se nas pesquisas de outros cientistas da linguagem, chegou ao seguinte sistema:

  

 

Nesse esquema criado por Jakobson, cada elemento possui uma função específica, logo: o remetente é quem emite a informação; a mensagem é o conteúdo que se deseja comunicar; o contexto é o conjunto de aspectos que constituem o referente; o contato é o canal físico ou psicológico entre o remetente e o destinatário e pelo qual a informação é transmitida; o código é o conjunto de signos - sistema linguístico - (ex: a língua) que estrutura a mensagem; e o destinatário é quem se destina a mensagem. Dessa forma, ao redigir um texto dissertativo, uma carta, ata, e-mail ou qualquer outro documento é fundamental tomar como premissa essa teoria supracitada, pois a falta de qualquer um desses elementos pode, certamente, prejudicar o processo comunicativo. No tocante ao universo corporativo o problema toma uma proporção exponencial, se pensarmos de maneira ilustrativa que uma Resolução, Portaria ou Nota Técnica, no seu processo de construção foi desconsiderado o perfil e as necessidades contextuais do Destinatário. Vale frisar que no caso fictício, a dificuldade para resolver o equívoco é deveras morosa, visto à dependência de diversas pessoas envolvidas no procedimento, o que traria mais prejuízo para determinado público.

 

Destarte, comunicar (não importa o quê: com mais forte razão um texto literário) não consiste somente em fazer passar uma informação; é tentar mudar aquele a quem se dirige; receber uma comunicação é necessariamente sofrer uma transformação (ZUMTHOR, 2007, p. 53). Portanto, com este objetivo, o título deste texto, a priori, para alguns pode soar de forma polêmica, em contraponto, para outros, pode representar uma realidade a qual já vivem ou viveram, para outros ainda, pode parecer apenas mais um na infinitude de opções do seu dia a dia. Mas, voltemos aos seus “legumes”.

Parafraseando Hannah Arendt (2007), em A Condição Humana, o mundo comum acaba quando todos começamos a nos comportar como se fôssemos membro de uma única família, no sentido do protecionismo cego, inconsequente, que isola a nossa capacidade de discernir entre o certo e o errado, o coerente e o contraditório e aos poucos vai nos aprisionando em uma subjetividade de nossa própria existência singular. Assim, nesse viés de criticidade, a escolha do título se justifica pelo fato de haver um caráter ambíguo em sua essência, já que podemos considerar duas hipóteses, sob a ótica de um prelúdio.

 

Partindo da Semiótica, ciência que estuda os sistemas de signos verbais e não-verbais, a primeira, seria entender que quando convivemos com pessoas que compartilham do mesmo ponto de vista que o nosso, isto nos traz um sentimento de aprovação externa e uma sensação de autoconfiança, até mesmo de proteção. Neste cenário existe a possibilidade do indivíduo permanecer em sua “zona de conforto” por um longo período e talvez até pelo resto de sua vida. A segunda, o mote desta produção, é mostrar, por meio de um texto científico/literário/informativo, que em tempos de crise mundial ocasionada pela disseminação do COVID-19, e de isolamento social obrigatório, é cabal que você mantenha a dinâmica de realizar atividades diversificadas, como por exemplo a escrita e a leitura, de múltiplas naturezas ou finalidades, técnicos, formativos ou meramente fruitivos. Este hábito proporciona vivenciar experiências que, em uma análise preliminar, podemos afirmar que existem dois ganhos: um deles é o contato com o desconhecido, ao passo que este é a matriz geradora do segundo, ou seja, a ampliação do conhecimento individual.

 Aprendemos mais, intensamente e criticamente, quando nos predispomos a dialogar com os que pensam diferentes de nós, quando temos coragem de ouvir o que nos amedronta e retira o nosso chão, que nos suspende e as vezes extrai o nosso oxigênio, pois é também dessa forma que confirmamos o que suspeitamos ou desconstruímos as verdades que sempre acreditamos e que doravante, poderão ser construídas coletivamente em uma relação contínua de interdependência humana. Por fim, nesta senda do aprendizado, já que o isolamento mental não nos é obrigatório, sugiro-lhe: seja qual for o seu “legume” escolhido, pense diferente, faça o bem para si, para àqueles que estão a sua volta, e, multiplique suas experiências leguminosas!

 

Professor de Linguagem e Comunicação - Campus Brasília

 

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REFERÊNCIAS

 

ARENDT, Hannah. A Condição Humana. 16ª Edição. Tradução de Roberto Raposo.Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

FIORIN, José Luis. Introdução à Linguística. I. Objetos teóticos. 6ª Edição. São Paulo: Contexto. 2012.

JAKOBSON, Roman. A lingüística e suas relações com outras ciências. In: JAKOBSON, Roman. Lingüística; poética; cinema. São Paulo: Perspectiva, 1970, p. 11-64.

RIBAS, Andréia Lins; SALIM, Cassiano Ramalho. Gestão de pessoas para concursos. 4° Edição. Brasília: Alumnus Editora, 2016.

TORQUATO, Gaudêncio. Comunicação nas organizações: empresas privadas, instituições e setor público. São Paulo: Summus, 2015.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

 

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