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Histórias, lembranças e desafios dos moradores da Serrinha do Paranoá

Criado: Quinta, 02 de Julho de 2026, 15h48 | Publicado: Quinta, 02 de Julho de 2026, 15h48 | Última atualização em Quinta, 02 de Julho de 2026, 15h51 | Acessos: 51

Reportagem produzida pelos estudantes do EMI Eventos do Instituto Federal de Brasília (IFB) apresenta resultado das pesquisas desenvolvidas no Projeto Integrador (PI) Memória das Águas.

O Projeto Integrador “Memória das Águas”, realizado no Curso Técnico em Eventos Integrado ao Ensino Médio, sob a orientação das professoras Alice Watson e Giulle Silva, surgiu no primeiro semestre de 2026 com o objetivo de pesquisar o ODS 6 – Água Potável e Saneamento, além de analisar tragédias ambientais, como as de Mariana e Brumadinho, marcadas pelo rompimento de barragens de mineradoras.

Em março, a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) aprovou o Projeto de Lei nº 2.175/2026, que previa soluções para a capitalização do Banco de Brasília (BRB), a fim de sanar os prejuízos decorrentes das negociações com o Banco Master. Entre as propostas estava a cessão de áreas públicas para viabilizar a operação, incluindo a gleba A da Serrinha do Paranoá, reconhecida por sua importância ambiental e hídrica para o Distrito Federal.

Como o tema estava diretamente relacionado às águas — foco central do Projeto Integrador — e diante da intensa mobilização da sociedade civil contra essa medida em Brasília, a turma redirecionou suas atividades para conhecer, pesquisar e dar visibilidade a esse território fundamental para o abastecimento de água da capital. Foram realizadas duas visitas técnicas e 10 entrevistas. O resultado desse trabalho foi organizado em uma série de vídeos, que estão sendo editados para o Instagram do projeto (@memoriadasaguasif), e na reportagem a seguir, produzida pelas estudantes do Projeto Integrador.

 

O que é a serrinha?

A Serrinha do Paranoá está localizada no Lago Norte, em Brasília, Distrito Federal. É uma região de grande importância ambiental para o Distrito Federal. A Serrinha abriga mais de 119 nascentes catalogadas, que fornecem água para córregos que deságuam no Lago Paranoá, contribuindo para o abastecimento de água e para o equilíbrio ambiental de Brasília.  Além disso, a região abriga outras riquezas naturais, com uma vegetação nativa do Cerrado e grande diversidade de animais e plantas. A Serrinha do Paranoá é habitada por moradores antigos, famílias, produtores rurais e pessoas que defendem a preservação da região e lutam pela regularização das ocupações. 

Mas não é só de natureza que vive a Serrinha; a moradora Bruna Ledo destaca que a maior riqueza do território são os vizinhos que se ajudam, com quem se podem criar laços, bem diferente da realidade das cidades.  “É maravilhoso viver em comunidade”, afirma. O morador Ricardo Monte Rosa, que vive no local desde a década de 80, ressalta que esse sentido de comunidade tem se perdido com o crescimento desordenado da região e que uma das principais ameaças agora a essa paz é a poluição sonora. “Sinto falta do silêncio”, diz o morador ao ser questionado sobre o que mais mudou na região desde que chegou. Ainda assim, destaca que, aos finais de semana, reúne amigos e vizinhos da região e faz almoço coletivo muitas vezes com os moradores dos lofts que aluga em seu terreno. “É bom demais ter essa relação com as pessoas que moram aqui”, conclui.

 

Ameaça a serrinha

Estudo da Secretaria de Agricultura do DF e do Instituto Oca do Sol mapeou que 21% das nascentes da Serrinha estão em estado ruim ou péssimo, e 37% em situação apenas razoável. O motivo é o avanço urbano (como no Setor Habitacional Taquari I), que causa desmatamento, impermeabilização do solo e poluição por esgoto. Além disso, a maioria das fontes fica em propriedades privadas, dificultando a preservação. E a serrinha foi alvo de ameaça após o Governo do Distrito Federal propor a utilização da Gleba A, avaliada em cerca de R$ 2,3 bilhões, como garantia patrimonial em uma operação envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB). O Conama alertou para o risco de desabastecimento e finalidade ao tratar um patrimônio ecológico como ativo financeiro.

A proposta gerou grande revolta da sociedade. Moradores, ambientalistas e organizações realizaram manifestações, principalmente no Eixão Norte em defesa da Serrinha, enquanto o Ministério Público e órgãos ambientais apontaram riscos para a preservação da área e para a segurança hídrica do Distrito Federal. “Nós entramos no modo guerra; fomos para cima” – Lúcia Mendes, ex-presidente da Associação Preserva a Serrinha e moradora da região há décadas.

Após decisões da Justiça e intensa mobilização popular, a Justiça do DF barrou a venda sob pena de multa de R$500 milhões para o GDF, e a governadora Celina Leão (PP) autorizou a criação do Parque Distrital da Serrinha. Em abril, o Governo do Distrito Federal sancionou a lei nº 2.295/2026,  que retirou a Serrinha do Paranoá do plano que usava os imóveis públicos do DF para salvar o BRB. Agora, a expectativa da comunidade é que a promessa seja cumprida e acompanhada por ações efetivas de fiscalização e preservação.

 

Por que salvar a serrinha?

A Serrinha do Paranoá é uma área muito importante para a preservação da água no Distrito Federal, e a situação que muitas das nascentes de lá se encontram preocupa bastante. “A quantidade de água que a serrinha produz não é apenas para moradores daqui; é a fonte de fornecimento de água para o Distrito Federal inteiro”, ressalta Lúcia Mendes, informação que poucos moradores do DF sabem.

“Os córregos da serrinha jogam água limpa no lago; é aqui que eles captam, e hoje a gente abastece água para o Lago Norte, Asa Norte, Itapoã, Paranoá e estamos jogando água até lá pra Sobradinho. Então olha a importância disso aqui”, pontuou.

 

Conclusão

A reportagem é apenas o início da jornada do Projeto Integrador Memória das Águas. A partir de agosto, com o retorno das aulas, será publicada no Instagram @memoriadasaguasif uma série de vídeos produzidos pelas estudantes, reunindo entrevistas com moradores, pesquisadores e defensores da Serrinha do Paranoá. Em uma linguagem acessível e voltada ao público jovem, o projeto busca conscientizar sobre a importância desse território para a segurança hídrica do Distrito Federal, destacar seu rico patrimônio ambiental, histórico e turístico e incentivar cada vez mais pessoas a conhecerem a região. Afinal, só preservamos aquilo que conhecemos. 

 

Siga @memoriadasaguasif e acompanhe essa iniciativa que une educação, pesquisa, comunicação e defesa do Cerrado. 

 

Referências bibliográficas

G1 Distrito FederalAgência Pública e Brasil de Fato DF (cobertura da crise do BRB, ações do MP e decisões judiciais de março/abril de 2026).

Correio Braziliense (dados do mapeamento de nascentes da SEAGRI-DF e Instituto Oca do Sol).

Entrevistas realizadas com moradores e estudantes da região.

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