Histórias, lembranças e desafios dos moradores da Serrinha do Paranoá
Reportagem produzida pelos estudantes do EMI Eventos do Instituto Federal de Brasília (IFB) apresenta resultado das pesquisas desenvolvidas no Projeto Integrador (PI) Memória das Águas.
O Projeto Integrador “Memória das Águas”, realizado no Curso Técnico em Eventos Integrado ao Ensino Médio, sob a orientação das professoras Alice Watson e Giulle Silva, surgiu no primeiro semestre de 2026 com o objetivo de pesquisar o ODS 6 – Água Potável e Saneamento, além de analisar tragédias ambientais, como as de Mariana e Brumadinho, marcadas pelo rompimento de barragens de mineradoras.
Em março, a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) aprovou o Projeto de Lei nº 2.175/2026, que previa soluções para a capitalização do Banco de Brasília (BRB), a fim de sanar os prejuízos decorrentes das negociações com o Banco Master. Entre as propostas estava a cessão de áreas públicas para viabilizar a operação, incluindo a gleba A da Serrinha do Paranoá, reconhecida por sua importância ambiental e hídrica para o Distrito Federal.
Como o tema estava diretamente relacionado às águas — foco central do Projeto Integrador — e diante da intensa mobilização da sociedade civil contra essa medida em Brasília, a turma redirecionou suas atividades para conhecer, pesquisar e dar visibilidade a esse território fundamental para o abastecimento de água da capital. Foram realizadas duas visitas técnicas e 10 entrevistas. O resultado desse trabalho foi organizado em uma série de vídeos, que estão sendo editados para o Instagram do projeto (@memoriadasaguasif), e na reportagem a seguir, produzida pelas estudantes do Projeto Integrador.
O que é a serrinha?
A Serrinha do Paranoá está localizada no Lago Norte, em Brasília, Distrito Federal. É uma região de grande importância ambiental para o Distrito Federal. A Serrinha abriga mais de 119 nascentes catalogadas, que fornecem água para córregos que deságuam no Lago Paranoá, contribuindo para o abastecimento de água e para o equilíbrio ambiental de Brasília. Além disso, a região abriga outras riquezas naturais, com uma vegetação nativa do Cerrado e grande diversidade de animais e plantas. A Serrinha do Paranoá é habitada por moradores antigos, famílias, produtores rurais e pessoas que defendem a preservação da região e lutam pela regularização das ocupações.
Mas não é só de natureza que vive a Serrinha; a moradora Bruna Ledo destaca que a maior riqueza do território são os vizinhos que se ajudam, com quem se podem criar laços, bem diferente da realidade das cidades. “É maravilhoso viver em comunidade”, afirma. O morador Ricardo Monte Rosa, que vive no local desde a década de 80, ressalta que esse sentido de comunidade tem se perdido com o crescimento desordenado da região e que uma das principais ameaças agora a essa paz é a poluição sonora. “Sinto falta do silêncio”, diz o morador ao ser questionado sobre o que mais mudou na região desde que chegou. Ainda assim, destaca que, aos finais de semana, reúne amigos e vizinhos da região e faz almoço coletivo muitas vezes com os moradores dos lofts que aluga em seu terreno. “É bom demais ter essa relação com as pessoas que moram aqui”, conclui.
Ameaça a serrinha
Estudo da Secretaria de Agricultura do DF e do Instituto Oca do Sol mapeou que 21% das nascentes da Serrinha estão em estado ruim ou péssimo, e 37% em situação apenas razoável. O motivo é o avanço urbano (como no Setor Habitacional Taquari I), que causa desmatamento, impermeabilização do solo e poluição por esgoto. Além disso, a maioria das fontes fica em propriedades privadas, dificultando a preservação. E a serrinha foi alvo de ameaça após o Governo do Distrito Federal propor a utilização da Gleba A, avaliada em cerca de R$ 2,3 bilhões, como garantia patrimonial em uma operação envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB). O Conama alertou para o risco de desabastecimento e finalidade ao tratar um patrimônio ecológico como ativo financeiro.
A proposta gerou grande revolta da sociedade. Moradores, ambientalistas e organizações realizaram manifestações, principalmente no Eixão Norte em defesa da Serrinha, enquanto o Ministério Público e órgãos ambientais apontaram riscos para a preservação da área e para a segurança hídrica do Distrito Federal. “Nós entramos no modo guerra; fomos para cima” – Lúcia Mendes, ex-presidente da Associação Preserva a Serrinha e moradora da região há décadas.
Após decisões da Justiça e intensa mobilização popular, a Justiça do DF barrou a venda sob pena de multa de R$500 milhões para o GDF, e a governadora Celina Leão (PP) autorizou a criação do Parque Distrital da Serrinha. Em abril, o Governo do Distrito Federal sancionou a lei nº 2.295/2026, que retirou a Serrinha do Paranoá do plano que usava os imóveis públicos do DF para salvar o BRB. Agora, a expectativa da comunidade é que a promessa seja cumprida e acompanhada por ações efetivas de fiscalização e preservação.
Por que salvar a serrinha?
A Serrinha do Paranoá é uma área muito importante para a preservação da água no Distrito Federal, e a situação que muitas das nascentes de lá se encontram preocupa bastante. “A quantidade de água que a serrinha produz não é apenas para moradores daqui; é a fonte de fornecimento de água para o Distrito Federal inteiro”, ressalta Lúcia Mendes, informação que poucos moradores do DF sabem.
“Os córregos da serrinha jogam água limpa no lago; é aqui que eles captam, e hoje a gente abastece água para o Lago Norte, Asa Norte, Itapoã, Paranoá e estamos jogando água até lá pra Sobradinho. Então olha a importância disso aqui”, pontuou.
Conclusão
A reportagem é apenas o início da jornada do Projeto Integrador Memória das Águas. A partir de agosto, com o retorno das aulas, será publicada no Instagram @memoriadasaguasif uma série de vídeos produzidos pelas estudantes, reunindo entrevistas com moradores, pesquisadores e defensores da Serrinha do Paranoá. Em uma linguagem acessível e voltada ao público jovem, o projeto busca conscientizar sobre a importância desse território para a segurança hídrica do Distrito Federal, destacar seu rico patrimônio ambiental, histórico e turístico e incentivar cada vez mais pessoas a conhecerem a região. Afinal, só preservamos aquilo que conhecemos.
Siga @memoriadasaguasif e acompanhe essa iniciativa que une educação, pesquisa, comunicação e defesa do Cerrado.
Referências bibliográficas
G1 Distrito Federal, Agência Pública e Brasil de Fato DF (cobertura da crise do BRB, ações do MP e decisões judiciais de março/abril de 2026).
Correio Braziliense (dados do mapeamento de nascentes da SEAGRI-DF e Instituto Oca do Sol).
Entrevistas realizadas com moradores e estudantes da região.


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